manchinha

Março 30 2004
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Às vezes vêem-se anjos na praia de verão rostos talhados na sombra da noite rebeldes efémeros possantes delicados atentos silenciosos és um anjo de praia asas imaginadas desnecessárias movimentos passos marcados na areia sem som as aparições voos precisos mãos enormes que nos amparam ficamos suspensos paralizados e livres surpreendes-me à chegada à partida desgostas-me. Onde estás anjo de praia?
publicado por manchinha às 03:50

Março 29 2004
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Gosto de sentir esta serenidade a preto e branco de artista mistério de paraíso conquistado assim tão seguramente por tão poucos tão certo tão clean tão tão tão. O James morreu de acidente a Duncan também só que estrangulada pelo exagero da écharpe ao vento presa na roda do descapotável foi-se ela que só ela acreditava nela dançarina autonomeada autodidacta com a certeza que atrai os incertos. Quem mais morreu de acidente tantos a morte é sempre um acidente tão certa mas sempre um acidente. Um ganho para os céus purgatórios infernos nirvanas olimpos essa é a certeza. A serenidade a preto e branco. O James era sereno embora não se possa ser sereno sem senão. Era um sereno com borbulhas ditas disfarçadas pela inteligência das lentes assim como a Norma a Jean que também era serena disfarçada pelo lourismo das lentes também inteligentes. O rei também era sereno a preto e branco ou a cores só que mais incerto porque afinal não morreu apenas se promoveu a ET vítima de conspirações muito pouco serenas mas muito secretas. A serenidade a cores é muito menos serena mais viva afinal a preto e branco é que a gente se entende. Acabou-se a serenidade acabou-se o preto e branco Citizen Kane era sereno intenso mas sereno Astair sereníssimo nada de stresses como a aeróbica axê da Mercury ou a virginiana Madonna. O James era sereno apesar o Marlon no cais era sereno. O Valentino não era sereno não há serenidade sem som.
publicado por manchinha às 04:37

Março 24 2004
O prazer mata, não me digam que não. O prazer mata todos os dias um bocadinho, de cada vez que nos apercebemos que existe e que é possível. De início, acreditava que a busca do prazer era o mal de todos os remédios, a mezinha para as minhas e as maleitas dos outros. Vivi anos nessa ilusão, mas vi a luz. Aos poucos e poucos fui-me apercebendo da mentira e hoje não tenho dúvidas.
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A minha amiga Z. era uma adolescente alegre, espirituosa e bem disposta. Tinha um imenso prazer em nos ccomunicar a todos o que pensava. Um dia, à mesa, disse que nunca se casaria. O pai perguntou-lhe o que queria dizer e ela explicou: estava disposta a amancebar-se, quantas vezes fossem necessárias para viver o que mais gostasse com cada um dos seus amantes. O pai levantou-se e ferrou-lhe uma valente bolachada que a estatelu no chão. Hoje, a Z. está casada há 20 anos, tem mais 35 quilos do que tinha na altura, quatro filhos e já sofreu dois ataques cardíacos.
A B. era uma mulher espectacular, feminina, brincalhona. Trabalhava na mesma empresa que o marido. Ele deixou-a por uma garota pouco mais velha que as filhas e aproveitou para mudar de empresa, de carro e de amigos. Os superiores imediatos da B. foram uns queridos, apoiaram-na, elogiaram-lhe o trabalho, ofereceram-lhe novas responsabilidades e, à vez, foram-se insinuando junto dela. Mas a B. tinha lá as suas convicções e nunca cedeu. Um dia, um morenaço com ar de artista de cinema convidou-a para sair e a B. resolveu que tinha chegado a altura de pôr para trás as más recordações. Uns meses depois os superiores hierárquicos começaram a descontar-lhe os minutos passados ao telefone com o namorado, acusaram-na de andar com a cabeça no ar e de estar a prestar um péssimo serviço à empresa. B. acabou por ser incluída no número de trabalhadores dispensáveis durante uma reestruturação e foi para a rua com a indemnização de lei. Na casa dos 40, B. nunca mais conseguiu outro emprego. Envelheceu, anda sempre adoentada e foge dos poucos amigos que têm tempo para a procurar.
M. era uma garota divertida e sociável que frequentava diariamente um grupo de amigos jovens e prometedores como ela, acabados de sair da faculdade. Juntavam-se nos tempos livres e faziam imensos programas juntos. Um dia conheceu um rapaz e começaram a namorar. Na primeira ocasião, M. levou-o consigo e apresentou-o ao grupo. Um dos amigos que conhecia dos primeiros anos do curso, que julgava ter nela a sua futura companheira, perdeu a cabeça e agrediu os dois. M. acabou no hospital, com vários golpes graves que lhe marcaram definitivamente a cara.
A T. que tem pouco mais de 30 anos, tinha o emprego perfeito, a casa perfeita e marido perfeito até descobrir que tinha contraído uma doença venérea grave. Confrontou o marido com o facto, ele acusou-a de o ter traído e sovou-a valentemente por conta da sua suposta leviandade. T. tentou deixá-lo, os pais tomaram o partido dele e acabou por ficar só, sem o apoio da família. Há pouco tempo soube que o ex-marido tinha sido infectado com VIH e que a sua actual mulher também contraiu o vírus. Mas a família continua sem lhe falar.

O prazer é como o colestrol: há-o bom e mau. O mau é o nosso, o bom é o dos outros.
publicado por manchinha às 17:29

Março 23 2004
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"Fear is growing so rapidly in this world. There has to be something other than fear. There has to be something else." - Kathy Acker (http://acker.thehub.com.au/)
Mais do que o medo. Claro que há mais do que medo (http://killrockstars.com/bands/acker/audio/KathyAcker.mp3)
publicado por manchinha às 03:30

Março 22 2004
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Nunca consegui ler um livro da Cassandra Rios. Alguns passaram lá por casa, criteriosamente afastados até das prateleiras dos livros para os adultos. Mais tarde, mais velha, nunca consegui deitar a mão a nenhum exemplar.
Imaginem: publicou o primeiro livro aos 16 anos, com dinheiro que a mãe, que nunca leu uma linha escrita pela filha, lhe emprestou. Nos anos 60 e 70 a ditadura brasileira marcou-a como escritora proscrita e perseguiu-a, banindo 36 dos seus romances. Mesmo assim, alguns chegaram a vender 300 mil exemplares, coisa que só o Paulo Coelho conseguiu igualar.
Continuo sem conseguir deitar a mão a nenhum dos livros dela. Conhecem-na? Têm?
publicado por manchinha às 15:09

Março 19 2004
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Doem-me os dentes vocês não sabem mas isto de não se ser bem sucedido faz doer os dentes e como já não me lembro o que é ter dores de dentes há tanto tempo faz muitos anos só me lembro da infância e mesmo assim nem toda não quero é mentira não há infâncias absolutamente felizes há infelicidades que não se esquecem mas estão longe e é mais fácil seleccionar os ficheiros de qualidade a reciclagem é que continua a funcionar mal quem é que quer reciclar coisas desagradávei mesmo que depois dêem papéis lindíssimos com texturas maravilhosas em que apetece tocar. Como ia dizendo, doem-me os dentes é como se tivesse uma enorme cratera na cara e os dentes demasiado grandes inchados inflamados a explodirem de lá de dentro a cara a doer quase tanto como os dentes. Dizem-me que não cheira mal mas não acredito há um odor fétido no ar como a minha alma feita massa pegajosa pútrida que se agarra aos dedos dizem-me que sonhar com dentes é sonhar com a morte mas não acredito porque me doem mesmo o raio dos dentes o que tem a morte que ver ccom isso só se é porque entretanto apodreça com a infecção espalhada por todo o corpo pelo cérebro a soltar a dor em alucinações e medos que já me aterrorizam. Não nasci para isto devia estar numa bonita praia com areia muito limpa o som do vento nas palmeiras atrás o barulho das ondas e tanta tranquilidade que adormecer fosse só para sonhar com alegrias para não nos lembrarmos depois que os sonhos ficam melhor guardados de dia parecem pesadelos se não nos largam. Digo-vos som toda a certeza esta dor de dentes ainda me mata pareço outro cristo a pagar por não sei que pecados meus não concerteza não me lembro de ter feito alguma vez alguma coisa que merecesse tamanho sofrimento e não não recebi a visita de nenhum anjo não me chamaram cordeiro nem me puseram num rebanho para suportar destinos que não planeei como se isso valesse de alguma coisa neste mundo nunca percebi como alguém planeia seja o que for e sobrevive ao eterno colapso da esperança nunca coisa alguma correponde às nossas expectativas mesmo quando acontecem os sonhos não sabem ao que estávamos à espera o arquitecto desta coisa deve ter cometido graves erros de base para ser tudo tão tremendamente f... e medonho e difícil e doloroso e sem razão aparente que o justifique. O raio dos dentes continuam a doer o cansaço da dor já é tanto que nem apetece sofrer mais um bocadinho para os tratar nem a promessa da cura nos compensa a partir de um certo momento passada uma linha na nossa cabeça que achamos que é o limite. Doem-me os dentes agora já a garganta pressinto que a infecção se alastra o cérebro começa a recusar-me os habituais instantes de lucidez entre as idas e vindas pelas células pelos cantos do corpo em que se perdem as sensações pelo menos eu perco tanta extremidade sensivel tanto input não adiciona nada senão à incapacidade de estabilizar a consciência não vos sucede perceber de repente está absolutamente tudo fora de controlo não adianta o que pense ou faça as coisas seguem o seu rumo próprio e para que serve o livre arbítrio se de nada bale deitar-lhe a mão uma cadeira continua a ser uma cadeira nunca deslizará para vir ter connosco a aeronave cairá sempre em cima do local onde está o ente querido não há forma de exercer aí e em qualquer outra circcunstância o livre arbítrio quando o fazemos parece que também já o fazemos de acordo com a inevitabilidade das catástrofes naturais das maleitas dos golpes de azar. De que serve então a vida se não passa de mais uma dor de dentes não me dirão não não me digam nada de qualquer modo não ouvia o inchaço do dente lateja-me no ouvido doem-me mesmo os dentes...
publicado por manchinha às 14:35

Março 16 2004
No princípio era o caldeirão e toda a gente vivia em Babel, uma espécie de centro comercial 'à la antiga'. Acho que até tinham loja do cidadão e tudo. Depois veio a invasão dos marcianos, que posteriormente havia de inspirar Átila, o Huno, e foi um salve-se quem puder, assim ao jeito do Dia da Indepêndia, 5º Elemento e por aí. Tipo, a gente sabe o que é um filme de acção, com um mínimo de enredo (não porque não haja história ou o que contar, mas porque o contador de serviço está a empatar ou então, de má fé porque a equipa dele perdeu o derby, resolve saltar todas as partes verdadeiramente significativas enquanto se embrulha com um KFC à frente do argumento). Nesta história de Babel foi assim que sucedeu, nem recortes de jornal nem pedregulhos gravados deixaram grande coisa. Também... Para os fãs das invasões marcianas, basta saber-se que o fogo veio do céu e que há algumas hipóteses dos invasores chegarem de vermelho... Pois, mas como ia dizendo, depois de Babel, com aquele fogo de artifício todo, os únicos senhores disponíveis eram (não os MIB, que esses vestiam de preto) os de cinzento, uma raça que resulta de um híbrido que ficou a meio caminho entre os chatos e os mangas de alpaca. Mas, adiante, que este conto ainda é grande. Os senhores cinzentos inventaram uma coisa que se chamava a Idade Média que, na primeira versão, era a Idade Medíocre. Só que para o povo entender era mais fácil abreviar e assim sempre tinham mais tempo para apreciar a realíssima chatice a que os votavam os homens de cinzento. É claro que os chatos também têm as suas vaidades. Depois de nos terem feito engolir toda a casta de tédios na forma de normas religiosas, cruzadas para equilibrar a demografia e queimas de bruxas que eram assim que a modos uma espécie de revista à portuguesa, só que ao vivo e a cores porque nessa altura ainda não se tinha inventado a televisão sem cheiro (e para quem estava habituado ao fedor da urina na rua e na roupa só podia ser mesmo com cheiros pró fortito...), depois, como dizia eu, destas políticas de valor artístico duvidoso, o mercado foi abaixo, claro está. Entrou-se então numa fase de recuperação em que os cinzentões aproveitaram para lançar a Renascença, que não passou, na verdade de uma manobra de diversão para poderem andar com umas corzitas mais gabirús, assim com a assinatura do Da Vinci, um antepassado do Versace que teve de vender a patente das máquinas voadores ao senhor da Virgin (que agora anda de balão só para contrariar). Enfim, depois disso, ainda houve uns foguitos de artifício com o senhor Henrique oitavo, assim chamado porque as suas respectivas nunca chegaram sequer aos quartos de final nem às semi-finais, que fazia com as pikenas o que os ingleses hoje tanto criticam aos árabes. Isto tudo para chegar a um tipo baixinho e com ar pindérico que era contra o 'melting pot' e tinha a mania de dobrar as pontas das cruzes. Os americanos, que sempre foram contra essas mariquices, inventaram o 'melting pot' deles e franchisaram-no pelo mundo inteiro. Só que se descobriu que afinal aquilo era um esquema de pirâmide, ainda por cima com um defeito de fabrico que anda para aí a rebentar pelas costuras. Ai... esqueci-me de traduzir: à portuguesa, o 'melting pot' é outro híbrido, um arraçado de sopa de cozido e chuva de pedras, em que a gente é que apanha com os calhaus enquanto os da colher rapam os fundos. E agora já não me lembro a propósito do que é que isto vinha...
publicado por manchinha às 15:07

Março 16 2004
As manchas mudaram de endereço, 'hélàs', por conveniências várias. Espero que não se desapontem com esta nova geografia...
Para quem estiver interessado, nas anteriores manchinhas, ver: www.manchinha.blogspot.com.
(não vale a pena, vou republicar tudo aqui...)
publicado por manchinha às 12:43

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
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