manchinha

Abril 23 2004
Flickin-News004.jpg

in a rock my heart lives free for I know you are out there somewhere
il ne coule jamais mon bateau
il est fait de parfaits amis ma nature
nager on l'apprend aux amis aussi
na parcimónia do silêncio da distância da contenção faço-te
crescer no meu mundo no meu amor
não me queixo pois quando
em mim floresces assim em delicadas
vibrações
de que se alimenta a minha alma
esse destino que traça o meu voo
deep in my rock my dream my desire you will never know
je ne me souviens jamais de mon passé
tu as toute ma memoire
espero-te junto ao mar um dia nessa
vaga virás como deusa
end of times would be stop loving you
publicado por manchinha às 20:11

Abril 22 2004
DEATHANGEL002.jpg

no meu anjo de morte na morte do meu anjo sendo o que és morte e anjo que encontro é o nosso de anjos ou de morte vivo eu do teu encanto de anjo já me encantou a morte por ora assim entre a tu vida e o teu canto
publicado por manchinha às 01:25

Abril 17 2004
Manchas003.jpg

Garanto-vos: hoje ganhei novas manchas. Estou com uma espécie de varicela ou sarampo da alma. A única coisa que não percebo é como apanhei isto. Dizem-me que pode ser uma coisa qualquer nos genes. Fui ao médico e tudo. Radiografaram-me e o resultado foi o que vêem em cima, uma espécie de rabiscos em pedaços da alma. Se se nasce assim, digo-vos, devia haver uma espécie de controlo de qualidade, uma garantia vitalícia, esse tipo de coisa. Vá lá perceber-se que raio significam manchas destas. E por que é que dão à costa quando menos se espera. É que até estava bom tempo, acreditem, e preparava-me para ir ler para a praia, óculos de sol e corta-vento para parecer assim uma espécie de surfista a pender para o intelectual. Mas levantou-se uma ventania, começaram a aparecer-me o raio das manchas, assim ao estilo de pop-ups indesejados. Só que não há software para controlar isto, digo-vos eu. Fui às urgências. Deram-me ben-u-ron e calmantes. Mais uma doença de senhoras, aposto. Quando não há software de prevenção há, pelo menos pré-formatação defensiva. Não é nada sério, có coisas de senhoras. Imagino quantas coisas de senhoras não catalogadas vão por esse mundo fora... A ignorância serve o domínio dos inseguros. Mas, aí está: admiro incondicionalmente essa capacidade alheia de transferir o inexplicável para o domínio confortável do lugar-comum - nervos, coisas de senhoras, a vida tem destas coisas, o que não tem remédio remediado está. Lá se foi a minha tarde de sol e leitura. Lá se foi a minha magra expectativa de tranquilidade. Lá se foi a paciência. Arrumei o ben-u-ron no armário, porque até fica bem a caixinha azul alinhada ao lado das outras, muito simétricas, muito band-aid. Os calmantes meti-os no bolso. Nunca são demais, de facto. Imaginem que uma das manchas saltava, assim de repente, e me fazia apertar os gasganetes ao médico que até era simpático, apesar de ter mais olheiras e rugas do que eu... Bem, mas já passou. As manchas continuam, mas a receita foi de grande tranquilidade: não sabemos o que são, mas é melhor não saber o que é do que ter a certeza de que é alguma coisa má, não é? Que raio de gestão de receios é esta? Nunca percebi: se não se sabe o que é, como é que se sabe que não é mau? Eu que o diga, eu que sinto estas manchas, que tenho de me deixar surpreender e conviver com elas. Que me adianta não saber o que são? Estão cá, não estão? Então? O que são? Porquê? Como? Quem me dera ter ido para a praia ler o parvo do livro. Ao menos, mesmo que a narrativa não seja linear, temos sempre a certeza que ali é uma página a seguir à outra, esta antes daquela, outra a seguir a esta, etc. Haverá alguma coisa mais segura e certa do que a forma como uma página se segue à outra? Quantas vezes nos podemos gabar do mesmo nesta vida. Tenho a certeza que é isso que me faz gostar tanto de ler. Ler é seguro, mesmo quando algum maldito autor se diverte a inquietar-nos e a trocar-nos as voltas, a mudar o mundo só para nos lançar em inquietantes dúvidas. Chegados ao fim, podemos sempre fechar o livro, arrumá-lo e pegar noutro. Se pudesse, transformava já estas manchas num livro, de preferência estupidamente bem organizado, com índice, fita colada à lombada a servir de marcador, páginas marcadas, capítulos de títulos esclarecedores, narrativas clarras e concisas, finais conclusivos de argumentos óbvios. A leitura, acreditem, pode muito bem ser o paraíso. Aqui, nas nossas mãos, numas centenas de páginas, preto no branco. Como as radiografias. São estampas que não nos dizem rigorosamente nada. Basta garantirem-nos que estão óptimas para sabermos que têm um final feliz.
publicado por manchinha às 04:14

Abril 10 2004
ROCHAS002.jpg

Às vezes vou à praia, outras vezes vou ao mar. Há diferenças, mas hoje não as sei. Vou de férias ontem, que não se sabe o dia de amanhã. Apanho polvos nas rochas, mas aborreço-me. Há uns anos sabiam-me os dias passados a olhar para o mar. Hoje inquieta-me o excesso de tempo para pensar. Mais uma mancha no meu currículo.
O que os museus portuguses têm de bom é que não há filas à entrada. Aos fins de semana vão para lá ler o expresso, à mesa das cafetarias. Deixam-nos as vistas mais livres e livram-se das crianças nos jardins, aos pulos e a falar sozinhas como em casa.
Deve ter sido dos 'Beautiful Loosers', esta mancha que mais parece uma nuvem em dia de trovoada. Se escrevesse um livro gostava que fosse como o do Cohen, mas arrepia-me só a ideia de ter de me passear por tanta acabrunhação. Não se deixem impressionar. Vale a pena, qualquer bocadito. É como uma bíblia, qualquer parágrafo faz sentido, nem que seja pelo dessentido existencial.
Ainda não li o livro do Saramago. Deve ser pecado, a avaliar pelo número de escritos a que deu forma. Ando a ler 'A foto de Lime', Leif Daviddsen, Asa. Interessante, fácil de consumir, com uma revisão de enfiar a cabeça dentro de gelo. As editoras perderam o brio e qualquer dia só lemos e falamos proto-guês.
Comprei um café fenomenal. Oitocentos e cinquenta gramas (não cabem mais na minha lata do vício) de pozinho escuro como breu e com um cheiro capaz de me elevar ao céu. Hélàs, esqueci-me completamente dos nomes das variedades que compunham a mistura.
Não gostei nada do fim que o Miguel Sousa Tavares deu ao Equador. Aliás, acabou a história quando ia justamente no melhor.
Um dia decidi fotografar todas as árvores secas que me apareciam à frente. Ainda tenho quatro caixotes de fotografias na arrecadação e continuo sem saber o que lhes fazer. A certa altura arranjei um emprego num advogado que convidou para almoçar no Escorial e me ia atirando da cadeira abaixo a empurrar o meu joelho com o dele enquanto me descrevia as virtudes afrodisíacas do camarão frito ao alhinho com que abrimos as hostilidades. No dia seguinte mostrei-lhe umas centenas de fotografias das árvores e insisti para que me dissesse, com toda a honestidade, se tinha futuro como caçadora de imagens. No final da semana dispensou os meus serviços.
Vou de férias ontem.
publicado por manchinha às 02:33

Abril 09 2004
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‘O que é um santo? Um santo é alguém que atingiu uma remota possibilidade humana. É impossível dizer o que é essa possibilidade. Acho que tem que ver com a energia do amor. O contacto com essa energia resulta no exercício de uma espécie de equilíbrio no caos da existência. Um santo não dissolve o caos; se o fizesse, o mundo já teria mudado há muito tempo. Nem acho que um santo dissolva o caos para si próprio, pois há alguma coisa de arrogante e parecido com uma guerra na noção de um homem a pôr ordem no Universo. É uma espécie de equilíbrio que constitui a sua glória. Ele cavalga os penhascos como um céu fugitivo. O seu percurso é a carícia da colina. O seu trilho é o desenho da neve num momento da sua combinação com o vento e a rocha. Alguma coisa nele ama tanto o mundo que se entrega às leis da gravidade e da sorte. Longe de voar com os anjos, ele traça com a fidelidade de uma agulha de sismógrafo o estado da sólida e sangrenta paisagem. A sua casa é perigosa e finita, mas sente-se em casa no mundo. É capaz de amar a forma dos seres humanos, as delicadas e retorcidas formas do coração. É bom ter entre nós homens desses, monstros de equilíbrio do amor.’

- Leonard Cohen, “Beautiful Losers” (1966)
publicado por manchinha às 13:41

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
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