manchinha

Outubro 31 2005
eu ia tanta vez à praia até fazia impressão vocês haviam de ver que eu não era como as manas não me queimava não senhora um dia até apanhei uma insolação daquelas valentes lembro-me que foi um problemaço para tirar o fato de banho parecia um tomate inchado só faltava escorrer o sumo em vez disso escorriam-me as lágrimas porque nem água fria podiam pôr-me arranjei a bonita uma semana de molho em tratamento e toda a gente no bem bom que eram as férias e foi assim que descobri que o kal-el era o super-homem e o rapaz-de-chumbo muito mais amigo dele que a moça-maravilha mas a quem eu achava graça mesmo era ao luthor carequinha que me parecia um carente dos diabos outra coisa que eu descobri era foi que o colega lingrinhas da minha irmã mais velha se esgueirava às tardes para o prédio que ficava nas traseiras do nosso e pisgava-se lá para as quatro e meia quando os papás chegavam a casa e quem morava lá era uma das meninas-modelo do liceu daquelas que iam à missa das seis e que frequentavam a mocidade portuguesa e os escuteiros ela também andava de volta das flores na igreja mas isso já era por causa da minha amiga m.c. que eu bem a via a oferecer-se para a ajudar a dobrar os paninhos ou as cortinas ou lá o que era da sacristia e no fim deitava-me mau olhado quando a m.c. largava o expediente para ir para a esplanada da riviera comigo se bem que a gente fosse lá por causa das torradas mistas eu pelo menos ia a m.c. acho que era mais pelas vistas que a cabeça dela parecia uma antena parabólica dessas que giram sem parar a tentar apanhar as comunicações dos e.t. sendo que naquela altura as únicas e.t. éramos nós ali numa esplanada cheia de gente a fazer de conta que estava solteira numa cidade onde toda a gente se conhecia pelo nome próprio está-se a ver que aquilo era tudo uma cambada de aspirantes a mentirosos já que todos pregavam a mesma peta mas era fresco ali e sempre ficava na praça com mais movimento por isso se queríamos ver um acidente de viação ali era o sítio mais provável porque apesar de só passar um carro de vez em quando como ia todo o mundo a olhar para as esplanadas e as pernas nuas nas esplanadas havia sempre um ou outro acidentezito uma discussão para fazer render nem que fosse só um arranhãozito no capo que quando farta o divertimento há que inventar lá isso há e foi assim também que fui alternando entre as tardes na biblioteca e os finais de tarde à frente das torradas mistas e dos mazagrins gelados e do fumo do cachimbo dos caçadores-guias que bebiam uísque gelado como quem se prepara para enfrentar quarenta dias no deserto
publicado por manchinha às 01:06

Outubro 29 2005
ler.gif


já não me lembro de muitos mas alguns destes escreveram livros que me deixaram suspensa os norte-americanos Edward Albee Louisa May Alcott Maya Angelou Isaac Asimov James Baldwin Saul Bellow Ray Bradbury Pearl Buck Edgar Rice Burroughs Erskine Caldwell Truman Capote Raymond Carver Raymond Chandler Mark Twain E. E. Cummings Emily Dickinson John Dos Passos Paul Dunbar T. S. Eliot Ralph Waldo Emerson James T. Farrell William Faulkner F. Scott Fitzgerald Robert Frost Ernest Hemingway Zora Neale Hurston Henry James James Jones Jack Kerouac Harper Lee Ursula LeGuin Sinclair Lewis Jack London Norman Mailer Carson McCullers Herman Melville James Michener Arthur Miller Henry Miller Toni Morrison Eugene O'Neill Edgar Allan Poe Katherine Anne Porter J. D. Salinger Irwin Shaw Upton Sinclair Gertrude Stein John Steinbeck Mark Twain Anne Tyler John Updike Gore Vidal Alice Walker Walt Whitman Tennessee Williams e estes franceses Albert CamusAlexandre Dumas filho Alexandre Dumas pai Anatole France Anaïs Nin André Gide André Maurois Antoine de Saint-Exupéry BalzacGuillaume Apollinaire Charles Baudelaire André Breton Charles Perrault Montesquieu Denis Diderot Émile Zola François Rabelais François de La Rochefoucauld George Sand Gustave Flaubert Jules Romains Julien Green Júlio Verne Marcel Proust Marguerite Duras Guy de Maupassant Max Jacob Michel Tournier Molière Ninon de Lenclos Paul Valéry Roger Martin du Gard Romain Rolland Simone de Beauvoir Stendhal Victor Hugo Marguerite Yourcenar Malraux Sartre Antonin Artaud Becket La Fontaine Lévi-Strauss Maurois Bazin Musset Blaise Cendrars Cocteau Racine Alphonse Daudet Françoise Sagan Paul Élouard Michel Foucault Gerorge-Bernard Shaw Sade Simenon Henry Troyat Verlaine Max Jacob Stephan Zweig Collete Georges Bernanos François Mauriac Jules Michelet alguns ingleses também estiveram de pedra e cal na minha formação Brian Aldiss Kingsley Amis Jane Austen Francis Bacon William Blake Manas Bronte Elizabeth Barrett Browning Robert Browning Anthony Burgess Lord Byron Lewis Carroll Angela Carter Agatha Christie Joseph Conrad Charles Dickens Arthur Conan Doyle Lawrence Durrell George Eliot Elizabeth Gaskell William Golding Robert Graves Graham Greene Aldous Huxley John Keats Rudyard Kipling D.H. Lawrence John Le Carré Katherine Mansfield W. Somerset Maugham Florence Nightingale George Orwell Alexander Pope Vita Sackville-West William Shakespeare Percy Bysshe Shelley Alfred Tennyson William Makepeace Thackeray Evelyn Waugh H. G. Wells Virginia Woolf Jonathan Swift Oscar Wilde e outros como Simone Weil Anne Frank Franz Kafka Primo Levi Herbert Marcuse Karl Marx Boris Pasternak Benedict Spinoza Leon Trotsky Henri Bergson Immanuel Kant Nicola Abbagnano São Tomás de Aquino Aristóteles Santo Agostinho Giordano Bruno Ralph Waldo Emerson Georg Hegel Maquiavel Platão Seneca Sócrates Leão Tolstoy Miguel de Unamuno e mulheres escritoras como Zoe Akins Mary Hunter Austin Elizabeth Bishop Anna C. Brackett Willa Cather Helen Keller ou outros como Lope de Vega Miguel de Cervantes Garcia Lorca Camilo José Cela Molina Quevedo Gonzalo Torrente Ballester Isabel Allende Miguel Angel Asturias Jorge Amado Dostoievsky Umberto Eco Italo Calvino Laura Esquível Carlos Fuentes Clarisse Lispector Jô Soares Chico Buarque Garcia Marquez Almudena Grandes Rómulo Gallegos o lindo lindo Herman Hesse Stephan King e até a Daniele Steel porque não e Juan José Millás Perez-Reverte Roa Bastos Stevenson Vargas Llosa mas também claro Raul Brandão Vergílio Ferreira Lídia Jorge Camões Herculano Alexandre O’Neil Almada Negreiros Eça Garrett Júlio Dinis Redol Almeida Faria Andrade Caminha Quental Aleixo Bocage Natália Correia Jorge de Sena Nemésio Alçada Baptista Botto Correia d’Oliveira Lobo Antunes Saramago António Nobre António José da Silva António Ramos Rosa Aquilino Ary dos Santos Ferreira Gomes Machado de Castro Camilo Bernardo Santareno Wallenstein Cesário Verde Pessoa Cruzeiro Seixas Dinis Machado Sousa Tavares Inês Pedrosa Clara Pinto Correia Melo e Castro Eugénio de Andrade Prado Coelho Fernando Assis Pacheco Namora Fernão Lopes Fiama Hasse Pais Brandão Florbela Espanca F.J.Viegas Gil Vicente Garcia de Resende Bandarra Guerra Junqueiro Ilse Llosa João Aguiar Torga Mário Ventura Sophia de Mello Breyner Knopfli Ruy Belo Ruy de Noronha Urbano Yvette Centeno Wenceslau de Moraes Teolinda Gersão Mia Couto Reinaldo Ferreira Matilde Rosa Araújo Maria Gabriela Llansol Mário Henrique Leiria Alberta Meneres Mafalda Ivo Cruz Luiza Neto Jorge Alegre Irene Lisboa mas ficam tantos de fora de que já não me lembro Leon Uris Patricia Highsmith Rita Mae Brown Jeanette Winterson Thomas Mann Robert Musil Henrich Böll Gunter Grass Goethe os irmãos Grimm okay desisto já estou com a cabeça em água e ainda agora me lembrei que não pus nenhum dos meus italianos preferidos nem africanos nem indianos nem coisa nenhuma assim não dá porque nem pus a Sontag nem as fábulas do Da Vinci nem nada droga




publicado por manchinha às 13:35

Outubro 24 2005
não havia ninguém que o travasse ao senhor ramiro fiquei a saber aqui em gaya-terra que o pikeno era irrequieto como o respectivo willie e andou por aí entre umas e outras até se lembrar de cobiçar a mulher do árabe do outro lado do rio no meu caso do meu lado do rio que é a sul por onde sempre andaram os árabes mesmo aqui no norte e então o ramiro que era católico e casado deixava o willie à solta sem açaime que nessa altura não se amordaçavam os animais de companhia e portanto o pikeno mal botou o olho na esguia elegante educada romântica exótica mana do árabe não esteve de modas e raptou-a que parece que naquela altura era muy macho raptar as amadas se fosse agora tinha um processo por assédio em cima e lá se ia o romance pelo cano quem não achou graça foi o árabe que nessas coisas também não deixava os créditos por mãos alheias e foi e raptou a mulher do ramiro sendo que foi bem mais esperto polido e educado e conquistou-a como nas histórias de encantar e não é que o ramiro não achou graça e quis reaver a mulher que aliás não queria para coisa nenhuma só que estava claro que não ia deixar o árabe levar a melhor com aquilo se bem que já não saiba muito bem como acabou a história o certo é que era de amor e nada pequena porque envolve muita acção se fosse hoje tinham de juntar pelo menos o scwarzennegger o van damme e o segall todos no mesmo plateau o governador a fazer de ramiro claro está porque além de católico ainda não sabia que era republicano mas já era uma besta de qualquer forma não sei porque não ensinam esta história na escola porque acaba por ser bem mais educativa do que a do Pedro e da Inês que é uma história de traições e desgraça e nesta a gente está mesmo a ver a mulher do ramiro a apreciar as almofadas e a delicada baixela árabe e a respirar de alívio porque não se atiravam a ela como se estivessem a assaltar uma fortaleza mas como se um embaixador apenas bastasse para argumentar a favor da capitulação e depois havia como mostrar que lá por ser um cacique o ramiro devia ter tido mais aulas de etiqueta e de deontologia na prática dava no mesmo mas talvez não andasse para aí a julgar os outros e a condená-los com a alma enegrecida pelo pecado isso não talvez não tivéssemos chegado a este ponto em que se continua a tomar de assalto as mulheres e nem por isso a conquistá-las é coisa pouca e mesmo assim não aprenderam nada em séculos e séculos de derrapagens
publicado por manchinha às 01:21

Outubro 22 2005
livro1.gif


mas o que é que importa a seriedade afinal se nada é nem excessivamente sério nem aparentemente tão pouco sério que não possa ser ignorado desconsiderado e já agora lembrei-me que o bom era ter um frigorífico desses com despejador de gelo na porta assim como assim nunca bebo água que não seja gelada nem no Inverno e já agora também gosto de pôr gelo em tudo o resto embora as natas batidas com gelo não fiquem nada bem se não levarem um bocado de icing sugar à mistura outra coisa importante é ter um tupperwear redondo suficientemente grande para guardar as panquecas no frigorífico que eu cá gosto de me levantar de manhã e fazer café e ter uma panqueca fria à mão para ir mordiscando enquanto beberrico a ler as notícias depois dá-me a fome da fruta mas por essa altura já vou nos blogs a tentar decidir a que é que respondo às vezes fala mais alto o senso comum e não escrevo nada eu bem sei que de vez em quando exagero nos comments e alguém fica verdadeiramente passado mas não é para levar a mal vocês sabem lá o sufoco que eu passava quando era miúda a gente vivia lá para o interior em Moçambique e todos os meses chegava um caixote da livraria com livros para nós as crianças e livros para eles os adultos e a minha mãe que sempre foi muito prática dividia parcimoniosamente os livros em quadrinhos e os de histórias romances e aventuras pelas quatro semanas do mês e assim era suposto a leitura chegar para os trinta ou e um dias mas não chegava digo-vos já que não chegava via-me aflita pelo menos metade do mês deve ter vindo daí o problema agora com o dinheiro só que ainda dura menos mas voltando à vaca fria a leitura era curta e à hora da sesta eu não tinha outro remédio senão esgueirar-me para as estantes dos grandes e ler tudo o que apanhava à mão foi assim que me inteirei de que havia um mundo corin tellado e outro western e outro em que a trama era mais nebulosa não percebia muita coisa mas ao menos lia e foi com grande apreensão que aceitei aos treze anos das mãos da minha mãe a forca na areia do morris west porque já estava em altura de ler livros para adultos e eu tinha medo que ela percebesse que já estava tudo lido e que finalmente o meu pecado de quase sete anos ia ser descoberto que as mães são assim uma coisa incompreensível de cheiro-te à distância mas não correu tudo bem li o livro e apresentei-me para o comentar com ela expliquei-lhe o que tinha percebido respondi-lhe às perguntas e ficou satisfeita eu aliviada estava a ver que daquela não passava e a seguir aproveitei para lhe perguntar se podia ser eu a escolher o próximo não havia problema disse ela a estante era aberta para mim e depois disso foi tudo bem mais pacífico até li as três sereias do irving wallace que naquele tempo os maridos proibiam às mulheres porque se passava numas ilhas dessas que os americanos inventam em que as nativas eram naturalmente generosas no coisar e por isso aquilo era uma espécie de paraíso julgavam eles só que o coisar não afasta as discussões e foi isso que aconteceu e por isso o livro não se dava às esposas porque podiam pensar que podiam fazer a mesma coisa ou que isso era o paraíso mas não o coisar à vontade é o paraíso dos homens isso entendi logo e a seguir passei a frequentar a biblioteca pública que era um paraíso de sombra e frescura e vazia como um útero e aí podia ler ainda mais livros o meu cartão dava para tudo que a bibliotecária era um espírito livre que acreditava na leitura livre e o meu cartão era jovem mas ela anotava os títulos das prateleiras jovens de cada vez que eu levava o tagore o shaw o john dos passos a minha vida passou a ter uma hora da sesta no paraíso
publicado por manchinha às 10:59

Outubro 21 2005
não estou aqui para lançar boatos não senhora mas há coisas que me deixam a pulga atrás da orelha que é como diz o povo e sabiamente que não há fumo sem fogo ora aqui há fumo e não é branco é mesmo escurinho não fora terem-me contado ali ao santa maria que certo personagem ontem confirmado candidato à presidência da república abonar periodicamente a mulher aquando membro do governo a pontos da vítima precisar de ser assistida no hospital e claro que foi mesmo e claro que houve quem se insurgisse e claro que houve ameaças e claro que houve também quem dissesse que era demais que da próxima denunciava o caso o certo é que para se chegar ao ponto de bater em alguém e até bater em alguém de forma a que a pessoa precise de tratamento num hospital é porque se está tão fora de controlo que o que devia entrar em jogo seriam os mecanismos de controlo dessas coisas e não falo do apoio à vítima só não senhora falo de processo criminal sim que foram repetidas as vezes que terá sucedido mas na política pesam as influências pesa tudo menos a mulher menos a agressão a uma muito menos que tudo o resto claro que se o agressor fosse verdiano ali do bairro das marianas ou de Moscavide ou das telheiras há muito que estaria telhado e sem causídico oficioso que lhe valesse sim que isto até para se ser criminoso há que ter meios mas aqui era nada mais nada menos que a figura que liderava todos os figurões por isso não se punha sequer o problema e assim como assim já estamos todos habituados a que as mulheres levem umas porradas que diferença faz isto é o país das duplas leis como na marginal da linha do estoril há duas leis uma de inverno em que se multam os carros que estacionam em cima dos passeios e outra de verão em que a polícia ajuda os carros a serem estacionados em cima do passeio e dupla lei para tudo diga-se que há uma que castiga com mão de ferro os destituídos de sorte e notas de euro e a que deixa impune políticos e doutores não é exclusivo nosso claro que nem franchising há para a filhadaputice livre mas digam-me lá se é possível votar em quem bate em mulheres para a presidência da república ou da associação cultural e recreativa de freixo-de-além-mar seja o que for desta vez não nos safamos com um agressor um octogenário a cair da tripeça e supostamente em defesa da propriedade dos terrenos da ota um caçador-poeta que é destituído e está convencido que é a contrair empréstimos que vai ganhar as eleições uma pikena revolucionária que é como as embalagens de pudim flan que apodrecem esquecidas no fundo do armário da cozinha um estalinista desfasado da realidade e uma professora de música digo-vos eu que boato ou não parece que vamos ali ao jumbo à secção de tudo a um euro
publicado por manchinha às 08:58

Outubro 17 2005
não consigo ler só um livro um jornal ou uma revista de cada vez pela mesma razão que não consigo chegar a um supermercado e ignorar os rótulos as embalagens coloridas e os produtos que não utilizamos todos os dias mas que dão um ânimo indescritível quando decidimos que temos de os utilizar eu sou dessas pessoas que se perdem nos corredores cheios de prateleiras que levam horas dentro de um supermercado e que vão atirando para dentro do carrinho uma série de coisas perfeitamente dispensáveis mas olhem só o que eu penso quando ando ali e vejo um pesto diferente verde e cheio de azeite ponho-me logo a imaginar uma taça de esparguete a fumegar com farrapos de pesto espalhados por cima queijo ralado e orégãos quando chega a celtinha de lista na mão e aponta para tudo que não está escrito olha lá quando é que vais ter tempo de comer o tal esparguete afinal andas a fazer dieta ou não claro que ando ele é um não mais acabar de sumos batidos e quantidades verificadas ao centilitro mas apetece-me na mesma toda a casta de temperos está-se a ver são mais os condimentos que me enlouquecem que a comida propriamente dita mas ela é organizada e disciplinada pega em tudo e retorna às prateleiras e mantém-se firme de vontades não vá eu ceder na mesma às tentações quando ela olha para o lado ainda tens frascos e caixinhas de há dois anos diz ela com toda a razão se bem que por mim já estivesse tudo gasto se bem que se não me dissessem olha que hoje não queremos nada esquisito nos ovos mexidos eu já tinha gasto tudo claro não havia frasquinho que não estivesse vazio e pronto para o lixo e a propósito não vos acontece acharem os frasquinhos óptimos e sentirem uma grande pena de os atirar fora sem mais nem menos é que só quando a gente vive no meio da abundância é que não tem pena de atirar coisas fora haviam de ver os mercados africanos de garrafas de plástico às centenas empilhadas por cima das esteiras umas a seguir às outras ao sol e ao ar livre desdobradas em grandes extensões de mercados e os garotos preparados para cortar os gargalos com as facas feitas de pedaços de lata afiados na pedra se queres uma taça ou um vaso mais alto arranja-se tudo para todos os tamanhos que quando não se tem mega lojas com jerricans taças e tacinhas vasilhame variado há que aproveitar o lixo que os ocidentais ricos desprezam tudo o que sirva para transportar água líquidos e comida é valioso pagas umas poucas moedas é riqueza é negócio
publicado por manchinha às 12:03

Outubro 11 2005
sazonalidade2.gif


sou daquelas pessoas sem grande fé em coisa nenhuma graças a deus diria alguém e nada disso faz sentido bem sei mas o que eu quero dizer-vos é que mesmo sem grande fé em coisa nenhuma há coisas que me surpreendem e me agarram pelos tintins por exemplo vocês conhecem com certeza umas centenas de mulheres que se divorciam ou nem se chegam a casar ou se estão casadas o melhor era não estareme alacam com os filhos a vida toda sem ver um tostão dos pais dos ditos filhos e aqui pelo menos aqui em portugal não há tribunal juiz autoridade nenhuma que os faça pagar seja o0 que for as mães que criem os filhos que eles mesmo advogados empresários ou coisa melhor declaram-se sempre desempregados ou a viver de mínimos ordenados o certo é que não lhes pagam não vale a pena tentar dar-se a volta ao assunto não pagam e ficam impunes e se alguma delas for protestar dizem-lhe olha vai ao tribunal de família que a gente até tem um sistema porreiro porque o estado substitui-se ao papás quando isso acontece e constitui-se credor dos ditos pois bem minha gente e logo a seguir no tal de tribunal de família a primeira coisa que querem é reunir os papás estão a aver a classe que é andar quase à pancada com os papás passar as passas do algarve e viver só de confusões e depois quando até está tudo mais ou menos calmo eles descobrirem que as tipas foram ao tribunal caramba dá-lhes logo vontade de negociarem com elas não é verdade de admitirem que há sempre uma via pacífica e conciliadora e essas coisas todas pronto lá se arma outra vez um trinta e um do caneco e volta tudo à estaca zero não pior porque elas tiveram a lata de falar mal deles às autoridades e essa treta toda que um homem a sério é só à chapada mesmo para enfiar qualquer coisinha na cabeça de atum do raio da mulher que resolveu engravidar dele só para o lixar tá-se a ver pois mas não fica por aqui porque além do carnaval que se arma afinal vem a descobrir-se que para provar que o papá não paga mesmo quem tem de ir a tribunal és tu com as declarações de impostos dos últimos anos dossiers e dossiers de documentos tens de explicar e voltar a explicar tens de mostrar a papelada toda quase que dizes de que cor são as cuecas que usas para dormir e no fim se ficar provado que não ganhas mais do que um ordenado mínimo para ti e um por cada filho para poderes andar com a cabeça no lugar então lá consegues ao fim de anos que te paguem o que o papá previamente condenado a pagar nunca largou mas não te esqueças sub-humana da treta que não podes ganhar bem nem ter uma vida decente porque senão não tens direito a nada porque o pap'a esse sim pode viver à grande e aà francesa que nunca tem obrigação de nada e se for esperto nunca chega a ser pai de facto de coisa nenhuma não é absolutamente fabuloso por isso é que eu admiro os poucos homens que conheço que fazem de pais a sério lá isso admiro por isso é que eu tenho pena António que hoje te tenhas ido embora porque quando alguém presta parece que vai mais depressa e porque sempre foste desses pais que deram e voltaram a dar pelos e para os filhos por isso é que era importante que não tivesses ido porque dos outros eu não tenho fé António lá isso não tenho nem chega que tu tenhas sido a excepção porque a regra é muito má entendes mas tu lá arranjaste maneira de me fazer acreditar que nem todos os papás portugueses são um monte daquilo que a gente sabe por isso António um destes dias quando a gente se vir outra vez vou voltar a lembrar-me que nem todos os tipos são impunes irresponsáveis e culpados no que toca às suas obrigações sociais
publicado por manchinha às 17:51

Outubro 05 2005
eu só conto histórias verdadeiras acreditem porque também não gosto nada de passar por mentirosa mas uma vez que ninguém apreciou as ranhocas vou mudar de assunto para a rainha dona Amélia só porque hoje é o dia que é e a gente deve sempre lembrar-se do que deu origem a quê se bem que para aqui não interessa nada o certo é que a rainha dona Amélia tinha nada mais nada menos que um metro e oitenta e dois de altura uma autêntica amazona não consigo descobrir a altura do rei calculo que a tenham omitido só para contrariar de qualquer forma a senhora voltou para França de onde veio depois de lhe subtraírem o marido e um dos filhos e o antónio de oliveira salazar mandou-lhe uma bandeira portuguesa em mil novecentos e trinta e nove para ela ter em casa calculo que para a proteger de alguma distracção nazi porque segundo me lembro o senhor antónio dava-se bem com uns e outros até mandou preparar uma companhia de artilharia para intervir na guerra eu sei porque o meu tio e o meu pai estiveram em torres novas nessa companhia que ele considerava de elite e para onde foram uma data de meninos bem porque sabiam montar embora os cavalos já não se usassem para puxar canhões desde a primeira grande guerra ali no seio das elites de salazar era assim com uma data de tenentes com nome de família muito empertigados na sela e o chefe de estado a mostrar a sua elite de reserva ora aos boches ora aos ianques de cada vez que vinham trocar assinaturas em acordos que o povo desconhecia e eles agradeciam muito tanto os boches como os ianques e deviam sair dali a dizer safa que o tipo é mesmo retrógrado já nessa altura claro que o que o homem queria era isso mesmo que de Portugal não saiu nem uma ferradura à conta das visitas às elites montadas e armadas lusitanas e assim passou a guerra só que o meu pai que também montava bem mas não tinha jeito nenhum para as máquinas e isso continuou pela vida fora com ele a dizer que não nos preocupássemos de cada vez que avariava um relógio ou um transístor que ele arranjava e de facto fazia-o mas no fim sobravam sempre peças que ele garantia que estavam a mais e portanto não faziam falta o certo era que relógios e transístores feneciam cerca de cinco segundos depois de completada a reparação para nunca mais funcionarem mas como estava a contar o meu pai montava muitíssimo bem e ficava impressionante no seu uniforme impecavelmente passado a ferro e um sorriso confiante que fazia com que ficasse sempre lindíssimo nas fotografias mas não percebia nada de máquinas o certo é que o comandante da tal companhia de elite mandou-o chamar a dias de ele acabar o seu tempo de tropa e explicou-lhe que do quartel dele não saía nenhum oficial sem a carta na altura era uma modernice mas o homem tinha lá as suas convicções e foi assim que um impedido teve quarenta e oito horas para ensinar ao meu pai os segredos do automóvel e cumprir o mando do comandante que lhe passou a carta e o dispensou é claro que uns anos mais tarde e nas seguríssimas picadas moçambicanas os ensinamentos do impedido tiveram amplo uso sendo que nenhum macaco pássaro ou antílope alguma vez abriu o bico para delatar os solavancos do jipe willis pelo mato fora o certo é que nunca percebi como é que os nervos da minha mãe resistiram a tanta engrenagem chiante por força das desatentas mudanças de velocidade só que ali não havia outros espectadores era só seguir em frente o pior eram as pontes daquelas que nem se vêem nos filmes só nos desenhos animados com dois troncos atirados de margem a margem e ele a dizer fechem os olhos que vou fazer pontaria e um dia eu não aguentei o nervoso miudinho e olhei e ainda fiquei pior que ele fazia mesmo o que dizia fechava o diabo dos olhos quando atirava com o jipe para cima dos troncos deve ter sido milagre nunca cairmos à água que tifo apanhávamos pelo menos mas para quem aprendeu a conduzir com o impedido que por natureza e por obrigação regulamentar não podia dar ordens ao seu desinteressado pupilo até ia bastante bem claro que quando chegava a uma cidade distraía-se a dizer adeus às pessoas e batia invariavelmente no carro da frente
publicado por manchinha às 16:08

Outubro 03 2005
ranhocas.jpg


eu por acaso tinha outra coisa em vista isto é estava a pensar noutra forma de compensar os esforços sabem daqueles que fazemos sempre que nos largam por aí na vida sendo que a arbitrariedade do critério de recompensas tem o condão de me deixar perfeitamente intranquila e isso tem montes de razão de ser não acham onde é que vocês viram alguém ter a justa recompensa por exemplo do suor de uma vida inteira do ter porfiado toda a sua vida pela causa em que acredita etc etc quem é que vocês já viram digam lá a receber uma recompensa vinda dos céus assim a descer como os anjos nos cenários dos teatros que a gente bem vê a corda que eles têm e a corda que lhes dão mas faz-se de conta que não que são verdadeiros e podem mesmo pairar do tecto do teatro até ao palco mesmo e apesar das perucas loiras aos caracóis um dia estava na plateia com uma amiga e ela começou a meter o dedo no nariz quando um anjo desses andava por ali a pairar corda acima e corda abaixo e ela a meter o dedo no nariz e a escarafunchar e a fazer de conta que comia as macacas o que era quase verdade só que naquele dia não era só a brincar e se queriam ver o anjo a pairar e a ter ataques de vómitos só de olhar para ela nem fazem ideia até a peruca se torcia pendurada de lado porque o desgraçado estava mesmo com vontade de vomitar porque ele podia fazer de conta claro e andar para ali a subir e descer preso a uma corda que toda a gente inclusive ele achava que estava a fazer um figuraço e afinal nem por isso mas ela a minha amiga a fazer de conta que comia as macacas fresquinhas acabadas de pescar do nariz isso não ele não aguentava e dava uns sacões assim com os vómitos que pôs toda a gente quase a vomitar também porque não é fácil digo-vos eu não é mesmo nada fácil ver um anjo de fancaria aos vómitos pendurado numa corda aquilo foi um ver quem se pisgava mais depressa muita gente aos vómitos por ali fora já para não falar nas pessoas que estavam mesmo ao nosso lado e estavam a ver a muito curta distância as macacas ainda meio líquidas e brilhantes de nhanha a transitar muito calmamente das pontas dos dedos da minha amiga para a boca a língua à espera gulosa para apanhar os nacos transparentes e também azulados que lhe saíam do nariz eu sempre me espantou como é que ela fazia aquilo onde é que ela ia buscar tanta ranheta mas quando era preciso lá estava ela naquilo é claro que a peça acabou ali e puseram-nos fora com muito maus modos embora eu não tivesse culpa de nada mas estava solidária com ela claro não ia deixá-la arcar sozinha com as culpas afinal de contas até tinha sido giro vê-la dar assim conta de um teatro inteiro com tudo o que é gente a tentar vomitar não se sabe bem o quê porque era ela que estava a comer a ranhoca e não eles mas pronto as pessoas fazem sempre o que acham que devem fazer não há motivo para se ficar a pensar mal deste ou daquele por causa disso se querem assim que seja assim até porque de outra vez foi bem pior foi no metropolitano à hora de ponta e estávamos tão apertadas que a princípio nem percebemos bem como é que entrámos íamos para aí no marquês e ela pôs-se a fazer o mesmo a tirar macacas do nariz a revirar os dedos para virem bem grandinhas que se vissem claro só que desta vez não as comia atirava-as para todo o lado e era ver aquela gente toda que já não tinha espaço para se mexer mesmo assim a conseguir recuar recuar e a chegar-se para trás e de repente estávamos praticamente sozinhas no nosso canto da carruagem com uma clareira de quase metro e meio à nossa volta claro que ela continuava a atirar as ranhocas para ali e acoli e ninguém dizia nada era praticamente um milagre à hora de ponta estarmos assim à larga nem eu dizia nada olhava para o lado que aquilo também me fazia impressão e não queria vomitar como os do teatro porque se uma coisa é verdade é que aquilo dá mesmo vómitos e é preciso uma grande ginástica mental para não se ligar nenhuma mas foi a primeira vez que eu vi a recompensa de um tão grande esforço porque ela a minha amiga quase ficava com o nariz em sangue de tanto esgravatar para sacar as ranhocas
publicado por manchinha às 23:15

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
mais sobre mim
Outubro 2005
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
18
19
20

23
25
26
27
28

30


pesquisar
 
subscrever feeds
blogs SAPO