manchinha

Novembro 29 2005
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o mundo está triste e eu estou triste por assistir à tristeza à falta de entusiasmo ao pretérito dos sonhos antes mesmo de terem tempo de serem sonhados o mundo está triste da tristeza de todos e é pena que não se saiba que a tristeza é só um quarto fechado e escuro na nossa vida mas que a casa é muito maior que os quartos são muitos e a felicidade é afinal como a caverna do ali baba só precisamos de gritar abre-te sésamo e ela mostra-se e então nós avançamos confiantemente atravessamos a porta do quarto da felicidade e ficamos lá a torrar ao sol quentinho que banha o quarto como se ele fosse completamente aberto sem paredes onde pôr as janelas e essas coisas que desenhamos nos gabinetes de psicologia quando somos crianças e ainda nos perguntam se gostamos do desenho que estamos a fazer e isso é óbvio não é porque ninguém se dá ao trabalho de estar um tempão a desenhar aquilo de que não gosta isso é ainda mais verdadeiro quando somos crianças e nos levamos muito a sério e não brincamos com coisas importantes mas brincamos com tudo porque essa é a nossa natureza valha-nos isso eu cá quando era criança gastava imenso tempo a desenhar tudo o que me parecia essencial e não via à minha volta cadernos e cadernos de aventuras de fadas de super-heróis vocês não fazem ideia como era clara e rica a minha visão naquela altura depois só muito depois é que nos empurram para o quarto escuro da tristeza tudo e todos nos dizem vai lá para o quarto da tristeza anda vá desanda e nós vamos sem perceber nada de nada acreditamos que temos de ir mas na verdade não temos nunca temos de ir para lado nenhum que nos mandem era o que faltava mas é difícil compreender isso porque as pessoas que nos remetem para a tristeza são justamente as que mais nos importam são sempre as que amamos e no quarto delas parece que há pouco espaço para mais alegrias que as suas mas somos todos um bocado assim defensivos das nossas alegrias e tolos como soldados perfilados em guaritas a brincar às guerras com medos que nos roubem a alegria e a guardá-la a sete chaves até nos esquecermos completamente como é e é por isso que o mundo está triste tão cheio de soldadinhos a guardar a alegria e sem tempo para olharem para ela e se darem com ela eu sou desertora há muito tempo é um pecado capital que se paga com a vida é uma lei da vida um bocadinho parva mas é assim por isso vou pagar com a vida ser desertora da tristeza e das guaritas da vida pronto fujo da vida como dizem e depois quem é que quer uma vida chata assim
publicado por manchinha às 18:55

Novembro 19 2005
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vai-se bem por aqui abaixo a pé até à praia só que está um frio de rachar mas é tentador porque arranjaram um passadiço de traves de madeira daquelas que acamam as linhas do comboio e assim toda a gente passeia incluindo cães e crianças bicicletas e triciclos e carrinhos mas faz um frio de rachar de verão e de Inverno que cá para cima não há clemência meteorológica tem tudo que ver com a latitude como se diz por aí a verdade é que aqui o oceano é agreste seja em que altura for arrebatador mas violento uma pessoa não se cansa de olhar para este mar com as nuvens empilhadas por cima mesmo quando o céu está claro há nuances nos azuis e nos verdes e fica bonito lá isso fica
publicado por manchinha às 09:50

Novembro 16 2005
não tarda bazo daqui não tarda mesmo nada bazo e para longe que o que se nos perspectiva não tem nada de aceitável senão vejamos que temos dois marmelos com idade para ter juízo a tentar capitalizar eleições pela esquerda sendo como são irmãos do mesmo partido e igualmente ricos e habituados à boa vida do outro lado um comunista que ainda deve acreditar em gulags e na volta é ele que tem razão mas também está armado em chico esperto e já diz que nunca ninguém soube ser presidente em Portugal pois claro está a ver-se que ele foi a leninegrado aprender e voltou e não lhe dá para o gasto e trata agora de nos impingir a nós a cassete tá bem gasta lá a dinheirama dos camelos operários que ainda acreditam em ti e no pai natal francamente pior do que isto só quando o irmão bispo pastor representante de deus na terra evangelista e machão daquela coisa que a gente pensa mas não diz muito menos escreve jorge tadeu da igreja maná se candidatar à presidência da república mas nessa altura claro já portugal se tornou numa quinta-modelo da evangelização das massas e também estará a capitalizar o facto de todos os californianos e estrelas de cinema consumidos pelo álcool e pelos remorsos virem cá descobrir a verdadeira origem da divindade a olhar para nó os nativos com o olhos de quem finalmente entende a pureza dos autóctones será nessa altura que o aníbal sem elefante poderá pregar à vontade aos peixinhos que já não faz mal porque nessa altura ele será apenas mais um bispo com capacidade para multiplicar os calhaus alentejanos e transformá-los em pão enquanto não chega a idade dos milagres estamos no purgatório embora não seja bem essa a sequência original apregoada pelas bíblias deste mundo comemos calhaus e com eles também sucumbimos no apocalipse e olhamos para todo o lado como os loucos que evitam fixar seja o que for para não serem obrigados a confrontar-se com a mínima das parcelas da realidade também não vale a pena que esta realidade está pior que a francesa que lá ainda vão tendo energia para pegar fogo ao parque automóvel e assim contribuir para a proliferação dos seguros e da retoma da indústria motorizada já agora até gostava de saber quantas fábricas da citroen reanult e peugeot estavam à beira de fechar nos próximos dez anos só para avaliar das probabilidades daquilo ser tudo uma maldosa orquestração do capital e por isso é que lá veio o chirac de gravata elegante avisar que a frança está atenta aos meninos da nação em jeito de big brother branco branquíssimo o que me espanta é que alguém como ele ainda tenha a ilusão de que a fórmula resulta santos deuses de qualquer modo se fosse o sampaio fazia um ar grave e dizia senhores porque é urgente o debate sobre esta questão nas palavras do soares as pessoas têm o direito à sua indignação nas do alegre sinto-me traído vou perguntar ao vento que passa notícias do meu país o jerónimo se não fosse a perestroika já estavam a trabalhar para fósseis nos glaciares siberianos o louça organizava uma manifestação de protesto o bush mandava os mib com canetinhas lazer e eu bazo não tarda
publicado por manchinha às 08:13

Novembro 14 2005
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é que eu ontem resolvi esticar-me no sofá da sala a ver televisão mas na verdade estava era a ver se dormia que as castanhas e a vinhaça trocaram-me os fusos horários acabei por não dormir coisa nenhuma que a descendente mancha se aboletou no sofá ao lado e teve um ataque denunciador de uma qualquer síndrome de confessionário lá se foi o descanso entre sabes olha e depois o que eu disse não achas vê lá tu ah ah ah eu calada na mesma sim e não pois a pensar que raio isto ainda me troca mais os azimutes mas a coisa é assim mesmo e entretanto estive a ver uns vídeo-clips no mcm por esta ordem britney spears toxic the pussycat dolls don’t cha celine dion je ne vous oblie pas madonna hung up mariah carrey we belong together robbie williams tripping jasus que até me mareei com a qualidade dos clips tirando o da madonna e o do robbie porque a britney que é um produto não uma artista aparece em todas as versões loura morena fatal ruiva vermelha tipo quinto elemento e é uma coisa de uma pobreza assustadora porque o clip tem tudo boa imagem boas ideias tudo e é uma fantástica caca-caca-plus-plus tipo colecção de lugares comuns sem nenhum argumento a atirar para o pornofilme classe z assim com a pikena de hospedeira de avião farda cinzenta para a gente ficar a pensar nas modernices pseudo eróticas da militância militar das mulheres e a esfregar o rabiosque nas ‘coisas’ dos passageiros e trancada com um na casa de banho do avião muito emanuelle e a britney com ar de menina mas muito marota e depois de motorizada com um macho negro e musculado como se ela estivesse disposta a renegar a sua condição wasp isso é que era lindo tenho a certeza que quando acabar a carreira de produto musical vai directa para bollywood fazer sexo com um elefante vestida de babydoll toxic sim mas para a inteligência já as pussycat dolls quase lhe roubam o primeiro lugar nos lugares comuns só gostava de saber se julgam que por as meninas despidas muito lindas com um cantor que faz lembrar o frota e parece um gorila ao pé das virgens despidas mas muito virgens e pô-las em buggys com graffitis pindéricos em acessos de cimento a viadutos todos garatujados para dar ideia da selva urbana e essas coisas à mistura com lufadas de ar que levantam as saias diminutas das aspirantes a marylins se acham que convence e convence claro que o nível de atrasadismo mental dos adolescentes treinados por este género de coisa é mais do que suficiente para engolir aquilo tudo a madonna essa consegue sempre incorporar os lugares-comuns e pôr-lhes uma espécie de selo de qualidade que essa vende-se como um produto mas a gente sabe que lá está e está magnífico o clip com aquele corpo de quase cinquenta anos que está muito bom mas já se nota que é de mamã dá-lhe realismo e só o estatuto da madonna aguenta uma coisa daquelas no extremo oposto está claro a mariah cujo conceito de artista passa obrigatoriamente pelas camas de lençóis de cetim e boudoirs cor-de-rosa com folhos tipo madame de casa de meninas mas claro está não se pode ter tudo e ela tem aquele sonho ou então é o realizador dos clips dela sei lá a celine dion jasus faz o número de princesa-diva no teatrinho restaurado parisiense a cantar para uma plateia de cadeiras forradas de veludo vermelho vazias que às tantas estão encimadas por chaminhas de isqueiro que só nos apetece ligar para o 112 e pedir um carro de bombeiros não vá o veludo arder embora a gente aprecie a montagem é tão déjà demasiado vu e ela entretanto como um rouxinol com as lights do teatro por trás da cabeça em efeito aleluia ó que lindo ó que piroso mais o vestidinho verde de cordões doutados à matrona romana do século XXI e parece que não há mesmo direcção de guarda-roupa que veja que a senhora tem uns pés que lhe sobraram da sua ascendência camponesa algures pelos tataravós e fazem-na calçar umas chinelinhas douradas que até parecem os sapatões da minie e da clarabela valha-nos santa abacate o robinho esse consegue ser quase nonsense com muita coisa óbvia e deduzível visto o gosto do rapaz por pincelar o trabalho por pequenos lapsos de plágio muito leves muito discretos suscitando a dúvida mas terrivelmente eficazes para os seus êxitos
publicado por manchinha às 13:52

Novembro 12 2005
a salomé é que a sabia toda se bem que eu já não me lembre muito bem qual era a linha empresarial que ela prosseguia o que também não faz a mínima diferença ainda me lembro das tacinhas de barro com marmelada que a minha avó punha nos parapeitos das janelas a secar com um bocado de papel vegetal por cima para não apanhar sujidades era igual ao litro porque a gente passava com as mãos suadas e carregadas de porcaria da brincadeira e enfiava lá os dedos para os lamber ao jantar é que eram elas ficávamos sem sobremesa de castigo pelas dedadas denunciadoras e a sopa nunca mais acabava tal era a antecipação do castigo voltando à salomé que na bíblia trocava a beleza por degolados aqui não era essa mas também viva de qualquer coisa ligada à beleza nunca percebi bem só sei que usava uns perfumes estonteantes não se podia era almoçar com ela que se ficava enjoado de odores até ao dia seguinte ao jantar já não era tão mau que já tinha saído há umas quantas horas de casa e do frasco de perfume sempre era mais fácil conviver com ela mas passava o tempo de restaurante em restaurante de bar em bar sem compromisso com escritórios ou patrões mas conhecia tudo o que era gente e um dia estava ali ao pé do elefante branco na tabacaria ao lado à espera que a dona gertrudes me trocasse a milena para pagar o táxi quando ela saiu do night club fresca e perfumada como sempre olá então por aqui o tipo que estava com ela parecia que vendia burricos em acampamentos de ciganos e não dizia a bota com a perdigota que a salomé era uma menina bem com quilos de pulseiras pelo braço fora e olhos azuis água daqueles que parecem estar sempre húmidos enfim trocámos amenidades e lá foi ela para o mercedes do vendedor de burricos e foi assim que fiquei a saber mais ou menos o que a salomé fazia nessa altura ainda não se discutia a sida com propriedade só havia bichas na consulta de ginecologia de oncologia ali a são sebastião até parecia que faziam ali turnos vindas de monsanto do intendente e de benfica iam à especialista como diziam ou às receitas de antibiótico e fungicida lembrei-me disto agora que morreu a prostituta em viseu com sida agora andam os pais e avós e tios e senhores doutores todos preocupados agora é que são elas andavam todos a prestar-lhe assistência e era do melhor que ela não se importava que não usassem preservativo agora anda tudo a fazer contas à vida que se calhar já não vão a tempo eu cá não estou a pensar nos pais e doutores não senhora o que me faz impressão são as contas que vão ter de fazer as mamãs e avós e tias que nem sequer sabiam do preservativo e as mais das vezes nem sabem de coisa nenhuma mas vão engrossar as estatísticas dos infectados com a imunodeficiência viral é que ainda não se lembraram de estudar antibióticos mentais para esses homicidas anti camisinha vai ser lindo vai um dia se alguém se lembra de os meter em tribunal por homicídio
publicado por manchinha às 03:28

Novembro 08 2005
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noutros tempos fizeram esforços titânicos para me obrigar a manter um diário cresciam como cogumelos no meio das minhas prendas com e sem chave de cartão plástico couro e até um de capa de estanho gravado com impalas e por que raio alguém acharia que aos onze anos alguém quer escrever um diário num livro que faz um cagaçal dos diabos quando toca em algum lado e ainda por cima com uma impala tristemente aprisionada no frontespício não sei que ideia fazem as pessoas dos diários mas à partida a ideia fazia-me nervos que me lembrava sempre de gente triste e solitária em sótãos escuros a rabiscar para futuros e inatingíveis amigos que raio coisa mais triste nunca haveria com certeza e por essa altura ainda nem tinha ouvido falar na anne frank claro que depois disso então é que não me apetecia diário nenhum não fossem nazis ou quaisquer sucedâneos andarem atrás de mim para me darem cabo do canastro mas nessa altura ainda se acreditava que manter um diário era uma espécie de treino para os trabalhos de casa e nesses eu também não era francamente nada entusiástica também se achava que se cultivava assim o bom português e as meninas bem comportadas tinham diários se bem que os coraçõezinhos e iniciais e suspiro ponto de exclamação não me parecessem nenhuma escola flagrante de português de adolescência desesperada isso sim mas adiante toda a gente tinha um diário e eu não mas tinha jeitinho já se sabia porque monopolizava a máquina de escrever lá de casa relegada para a escrivaninha da antessala do quarto dos hóspedes para não se ouvir de todo e eu relegada também ali ficava horas e horas até me irem buscar pela orelha o diário é que não não escrevia até porque a experiência me dizia que não me dava jeito nenhum desenhar malmequeres e anotar ao lado que o fulaninho tinha entrado na cantina com uma t-shirt cor de vinho nem pensar e logo a seguir os coraçõezinhos mas que tipo de pessoa seria eu a fazer coisas daquelas e às vezes nem isso faziam por exemplo a minha amiga g… mostrou-me o diário dela que era volumoso e provocava a curiosidade de qualquer adulto além disso ela usava óculos e nunca metia os livros numa pasta o que mais tarde vim a descobrir que assim juntava-lhes um ou outro romance de um clássico e toda a gente via que ela andava com os compêndios todos, com os cadernos e com os clássicos era tudo uma questão de gestão de imagem que funcionava belissimamente claro está e então o diário dela era volumoso e cheio de recortes de fotografias folhas que ela apanhava e notas ao lado que eram datas ementas completas dos lanches com as amigas listas de coisas que tinha feito só para agradar aos pais bilhetes de concertos pedaços de missivas românticas que apanhava do chão no liceu e assim tinha uma colecção impressionante de coisas das quais eu não percebia o sentido mas que representavam o diário de uma das adolescentes mais respeitadas pelos adultos que alguma vez conheci e fechava-o a sete chaves claro enquanto todos se convenciam que ela viria a ser uma das mais proeminentes intelectuais e mulher de negócios e esposa mais bem sucedida de todos os tempos ela aferrolhava as quinquilharias e a cola na gaveta trancada da secretária e endireitava constantemente os óculos e passeava os clássicos e acabava por ter sempre mais um ou dois valores de média do que eu mesmo que me esforçasse porque ninguém dá baldas a uma rebelde e eu não tinha diário de qualquer forma isto era só para vos dizer que há cada vez mais blogues parecidos com o diário da g… com recortes e cola alguns muito originais digo-vos já mas nunca na vida eu vi nada que me fascinasse tanto como o diário da minha amiga aliás as pessoas como ela nunca deixam de me fascinar e eu acho que ela era uma predadora inteligente e hoje é-o muito mais e não é a única
publicado por manchinha às 09:38

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
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