manchinha

Outubro 31 2006

não te ia dizer nada mas já que estamos aqui aproveito e atiro-te umas palavras gosto de palavras sabes da forma como vivem entre nós como se insinuam enrolam e deslizam à nossa volta não gostam quando cortam o ar como facas e nos rasgam como as bordas de uma folha de papel são irritantes os cortes das folhas de papel doem doem e nem sequer são imensos muitas vezes nem sequer sangram mas doem como uma grande calamidade nem nos deixam pensar mas não te ia dizer nada disto só que estavas aqui à mão e apeteceu-me dizer-te em palavras o que sinto como e quando o sinto

publicado por manchinha às 10:09

Outubro 28 2006

 

por outro lado também me faltam as palavras para te dizer todas as coisas importantes pelo menos as que acho que te devem ser ditas não aquelas que incessantemente me repetes que devem ser ditas eu sei que eu repito umas e tu outras e assim nos vamos entendendo e desentendendo como se pouco mais houvesse para ser dito não julgues por isso que desvalorizo o que me dizes pelo contrário porque é mesmo apenas o que me dizes que me suscita este tipo de discursos nem imaginas quanto mas para que sossegues deixa-me dizer-te que há um som nas tuas palavras uma coisa especial e quando mas dizes despertas em mim toda a sorte de coisas emoções sentimentos embora às vezes não me apeteça sentir e por isso sou rude agreste e digo-te coisas que não te quero dizer não é bem culpa tua porque eu por exemplo nem sequer acredito em culpas é só que não estou habituada a sentir tanto e francamente às vezes dispenso-o e é mais fácil ficar cá dentro protegida a assistir simplesmente à vida

publicado por manchinha às 17:55

Outubro 27 2006

escrevam-me cartas que eu gosto só não sei se gostam das que escrevo caramba isto é importante digo-vos eu aqui já de lápis afiado na mão e folha branca à frente às vezes tenho folhas amarelas de que também gosto e por vezes levemente texturadas e aí dispenso o lápis prefiro um bom aparo e tinta preta para fazer deslizar em linhas imaginárias a ouvir o leve arranhar do bico maleável enquanto escrevo em letras pequenas ou gordas conforme o sentimento é quase como o barulho da chuva no vidro da janela enquanto nos agarramos a uma chávena de café e mordiscamos uma torrada a pingar manteiga e mel com canela por cima ainda no outro dia pensei que calma seria a vida de fossem assim só tardes chuvosas em que nos ocupamos a escrever cartas na mesa da cozinha com uma manta pelas costas e os óculos embaciados de cada vez que levamos a chávena à boca para beber um gole ao lado um livro desses que nunca mais acabamos de ler porque nos agradam mas estamos demasiado preguiçosas para implicar a nossa atenção nisso escrevam-me cartas em papel fino que eu gosto de abrir o envelope depois de o sacudir e revirar a tentar adivinhar o remetente que não aparece em nenhum dos lados e extrair de lá a folha cuidadosamente dobrada em quatro esticá-la entre os dedos quando se dá por ela já se vai no segundo parágrafo e ainda não se percebeu tudo nem se pode mas é uma estranheza ler assim palavras escritas por alguém que não se dá ao trabalho de se anunciar e ainda por cima numa caligrafia certinha tão certinha que nos faz pensar se é verdade se realmente existem pessoas assim tranquilas e calmas como aquela letra perfeitamente alinhada de um lado ao outro da folha talvez não existam de facto mas também precisem de acreditar que sim talvez tantas palavras redondas corteses serenas sejam afinal prenúncio de uma imensa tempestade de paixões como as que consomem os grandes romancistas e se aquela pessoa está apenas a representar um papel assim como numa peça e eu sou apenas um figurante então que lhe digo qual é a minha deixa quem sou eu em cima de um palco que esperam de mim afinal há gente na plateia a olhar para mim parecem saber o que vai acontecer a seguir há pessoas que até me fitam directamente se bem que nunca lhes tenha concedido isso olham para mim como se me conhecessem como se tivessem o direito de me espreitar para dentro de mim mas não isso nunca permiti às vezes nem a mim me espreito quanto mais de fora como se os tivesse convidado o que acontece é que eu pertenço aquela classe de pessoas que gosta de comer torradas sozinha na mesa da cozinha de ler cartas que ninguém assina livros que se misturam com o sabor da canela e do mel barulho de chuva nos vidros em fins de tarde muito serenos escrevam-me cartas mas não as assinem não vale a pena que assim mantém-se o mistério e é melhor imaginar-se o desconhecido à nossa maneira

publicado por manchinha às 00:14

Outubro 08 2006

acho que já passei por aqui talvez isto diga alguma coisa a alguns de vós quando se passa pelo mesmo ou se vê o mesmo vezes e vezes sem conta

de qualquer modo passei por aqui só para ver como está tudo e está bem nota-se que a blogosfera tem crescido e assim também se vai dando vazão à escrita sem o monopólio das editoras e dos jornais que aqui lê-se muita coisa e à borla

já passei mesmo por aqui raios que coisa esta eu sei que já

também passei por moçambique e tomei notas num caderninho para escrever um livro de viagens se bem que não saiba bem o que pode ser considerado um livro de viagens mas vou tentar quem sabe talvez me saia alguma coisa interessante

a cor ou melhor a luz é sempre uma coisa que me espanta de país para país foi a primeira coisa que notei quando chegámos a luz e a cor lá fizeram-me sentir de novo em casa por outro lado aqui também é a minha casa nem sei se é possível ter duas casas mas pelo menos é assim que se sente

publicado por manchinha às 10:30

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
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