manchinha

Outubro 27 2006

escrevam-me cartas que eu gosto só não sei se gostam das que escrevo caramba isto é importante digo-vos eu aqui já de lápis afiado na mão e folha branca à frente às vezes tenho folhas amarelas de que também gosto e por vezes levemente texturadas e aí dispenso o lápis prefiro um bom aparo e tinta preta para fazer deslizar em linhas imaginárias a ouvir o leve arranhar do bico maleável enquanto escrevo em letras pequenas ou gordas conforme o sentimento é quase como o barulho da chuva no vidro da janela enquanto nos agarramos a uma chávena de café e mordiscamos uma torrada a pingar manteiga e mel com canela por cima ainda no outro dia pensei que calma seria a vida de fossem assim só tardes chuvosas em que nos ocupamos a escrever cartas na mesa da cozinha com uma manta pelas costas e os óculos embaciados de cada vez que levamos a chávena à boca para beber um gole ao lado um livro desses que nunca mais acabamos de ler porque nos agradam mas estamos demasiado preguiçosas para implicar a nossa atenção nisso escrevam-me cartas em papel fino que eu gosto de abrir o envelope depois de o sacudir e revirar a tentar adivinhar o remetente que não aparece em nenhum dos lados e extrair de lá a folha cuidadosamente dobrada em quatro esticá-la entre os dedos quando se dá por ela já se vai no segundo parágrafo e ainda não se percebeu tudo nem se pode mas é uma estranheza ler assim palavras escritas por alguém que não se dá ao trabalho de se anunciar e ainda por cima numa caligrafia certinha tão certinha que nos faz pensar se é verdade se realmente existem pessoas assim tranquilas e calmas como aquela letra perfeitamente alinhada de um lado ao outro da folha talvez não existam de facto mas também precisem de acreditar que sim talvez tantas palavras redondas corteses serenas sejam afinal prenúncio de uma imensa tempestade de paixões como as que consomem os grandes romancistas e se aquela pessoa está apenas a representar um papel assim como numa peça e eu sou apenas um figurante então que lhe digo qual é a minha deixa quem sou eu em cima de um palco que esperam de mim afinal há gente na plateia a olhar para mim parecem saber o que vai acontecer a seguir há pessoas que até me fitam directamente se bem que nunca lhes tenha concedido isso olham para mim como se me conhecessem como se tivessem o direito de me espreitar para dentro de mim mas não isso nunca permiti às vezes nem a mim me espreito quanto mais de fora como se os tivesse convidado o que acontece é que eu pertenço aquela classe de pessoas que gosta de comer torradas sozinha na mesa da cozinha de ler cartas que ninguém assina livros que se misturam com o sabor da canela e do mel barulho de chuva nos vidros em fins de tarde muito serenos escrevam-me cartas mas não as assinem não vale a pena que assim mantém-se o mistério e é melhor imaginar-se o desconhecido à nossa maneira

publicado por manchinha às 00:14

olha que lindo....
tu é que devias escrever cartas e enviá-las ao vento...nas tardes de chuva. Como esta carta, apelo, grito, sei lá eu o quê... Escreve cartas menina, escreve cartas. Não queiras tu perder tempo a ler o que outros não teriam jeito de escrever. Escreve carta que para isso te ajeitas... mas não ponhas selo, nem morada nem nada. deixa que caiam onde tiverem de cair... deixa...é melhor assim... Bjs
isabel a 27 de Outubro de 2006 às 23:50

e escrevo sim mas também gosto que me escrevam a mim e obrigada pelo escrito aqui
manchinha a 1 de Novembro de 2006 às 20:27

Hum... estavam deliciosas, as torradas!
Cheirava a manteiga quente e pão tostado, dobravam-se nos dedos, caíram-me no chá e eu fiquei ali, de colher na mão, à procura de mim na migalha perdida no embaciado das lentes. Pingaram a carta, arrastaram a tinta alastraram-me os olhos
pela casa como se fossem música.
É tão bom receber cartas dos amigos!
samartaime a 14 de Novembro de 2006 às 19:35

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
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