manchinha

Novembro 08 2005
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noutros tempos fizeram esforços titânicos para me obrigar a manter um diário cresciam como cogumelos no meio das minhas prendas com e sem chave de cartão plástico couro e até um de capa de estanho gravado com impalas e por que raio alguém acharia que aos onze anos alguém quer escrever um diário num livro que faz um cagaçal dos diabos quando toca em algum lado e ainda por cima com uma impala tristemente aprisionada no frontespício não sei que ideia fazem as pessoas dos diários mas à partida a ideia fazia-me nervos que me lembrava sempre de gente triste e solitária em sótãos escuros a rabiscar para futuros e inatingíveis amigos que raio coisa mais triste nunca haveria com certeza e por essa altura ainda nem tinha ouvido falar na anne frank claro que depois disso então é que não me apetecia diário nenhum não fossem nazis ou quaisquer sucedâneos andarem atrás de mim para me darem cabo do canastro mas nessa altura ainda se acreditava que manter um diário era uma espécie de treino para os trabalhos de casa e nesses eu também não era francamente nada entusiástica também se achava que se cultivava assim o bom português e as meninas bem comportadas tinham diários se bem que os coraçõezinhos e iniciais e suspiro ponto de exclamação não me parecessem nenhuma escola flagrante de português de adolescência desesperada isso sim mas adiante toda a gente tinha um diário e eu não mas tinha jeitinho já se sabia porque monopolizava a máquina de escrever lá de casa relegada para a escrivaninha da antessala do quarto dos hóspedes para não se ouvir de todo e eu relegada também ali ficava horas e horas até me irem buscar pela orelha o diário é que não não escrevia até porque a experiência me dizia que não me dava jeito nenhum desenhar malmequeres e anotar ao lado que o fulaninho tinha entrado na cantina com uma t-shirt cor de vinho nem pensar e logo a seguir os coraçõezinhos mas que tipo de pessoa seria eu a fazer coisas daquelas e às vezes nem isso faziam por exemplo a minha amiga g… mostrou-me o diário dela que era volumoso e provocava a curiosidade de qualquer adulto além disso ela usava óculos e nunca metia os livros numa pasta o que mais tarde vim a descobrir que assim juntava-lhes um ou outro romance de um clássico e toda a gente via que ela andava com os compêndios todos, com os cadernos e com os clássicos era tudo uma questão de gestão de imagem que funcionava belissimamente claro está e então o diário dela era volumoso e cheio de recortes de fotografias folhas que ela apanhava e notas ao lado que eram datas ementas completas dos lanches com as amigas listas de coisas que tinha feito só para agradar aos pais bilhetes de concertos pedaços de missivas românticas que apanhava do chão no liceu e assim tinha uma colecção impressionante de coisas das quais eu não percebia o sentido mas que representavam o diário de uma das adolescentes mais respeitadas pelos adultos que alguma vez conheci e fechava-o a sete chaves claro enquanto todos se convenciam que ela viria a ser uma das mais proeminentes intelectuais e mulher de negócios e esposa mais bem sucedida de todos os tempos ela aferrolhava as quinquilharias e a cola na gaveta trancada da secretária e endireitava constantemente os óculos e passeava os clássicos e acabava por ter sempre mais um ou dois valores de média do que eu mesmo que me esforçasse porque ninguém dá baldas a uma rebelde e eu não tinha diário de qualquer forma isto era só para vos dizer que há cada vez mais blogues parecidos com o diário da g… com recortes e cola alguns muito originais digo-vos já mas nunca na vida eu vi nada que me fascinasse tanto como o diário da minha amiga aliás as pessoas como ela nunca deixam de me fascinar e eu acho que ela era uma predadora inteligente e hoje é-o muito mais e não é a única
publicado por manchinha às 09:38

olha pois que eu também tive um dário pois tá claro que todas as meninas tinham e o meu até tinha chave e cheirava bem e tinha quatro cores diferentes e tudo o que um diário deve ter mas pronto sempre me deu mais jeito para escrever em cadernos velhos ou na máquina de escrever do meu pai ou no meio das aulas entre o sumário e a dataalguém
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Anónimo a 10 de Novembro de 2005 às 09:33

rsrsrsrsrs eu nunca tive um diário mas gostava de ter tido, confesso! Principalmente como o da tua amiga g, com folhas velhas e novas e das mais diversas qualidades. Que faria eu, hoje, com esse diário? - é um pouco tarde para a pergunta! Mas imagino que muito possivelmente teria de ler correrias de bicicleta, velejações, andebóis e natações, braços partidos, joelhos esfolados, pragas sobre as horas de solfejo, ameaças a rasteiradas, fúrias ansiosas por ter uma mota, ódio aos coices dos cavalos e desejos frenéticos de abalar para qualquer lado contanto que andasse de olhos esbugalhados a ver coisas! Maningue milando!Samartaime
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(mailto:samartaim@yahoo.com)
Anónimo a 9 de Novembro de 2005 às 01:53

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
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