manchinha

Janeiro 17 2008
hoje pediram-me falar da cultura da côdea foi assim de repente sem aviso prévio e ali estava eu em frente a um mar de olhares desconfiados à espera de um improviso milagroso que me ajudasse a dar um salto de anjo perante a plateia a cultura da côdea nunca foi o meu forte caramba mencionei-a apenas num serão fiz uns arabescos ilustrei ao de leve o tema mas confesso que foi tudo para cortar a palavra ao chatarrão que não parava de falar de negócios e assim pus-me a perguntar à minha vizinha da esquerda o que sabia ela sobre a cultura da côdea claro que nada respondeu-me ela porque não é propriamente assunto que mova montanhas e que nos faça parar para pensar a meio do dia não mas eu não desarmei e já tinha o pão na mão uma bola de côdea rija num jantar fino que nos ia arranhar as gengivas e o céu da boca a todos se nos atrevêssemos a aplicar uma dentada numa coisa daquelas e a cultura da côdea é precisamente isso disse eu a tratar o pãozinho como um diamante que se exibe depois de uma afoita expedição por savanas e minas de salomão quem não pensa na cultura da côdea não pensa em absolutamente nada e nessa altura já o chato estava a olhar para mim com cara de poucos amigos ele que tinha a boca cheia de pão e pathé e parecia que não se entupia nem nada com tanta tralha dentro dele que ali não havia côdea que resistisse é claro que nessa altura era preferível olhar para mim que afinal só brincava com um pãozinho entre os dedos em vez de estar a falar sem parar com a comida a enrolar-se na boca com as palavras que nem se consegue prestar atenção quando a comida vira assim conteúdo de saguão e bem à nossa frente por isso ali estava eu com a cultura da côdea lançada os dedos a acariciar a crosta do pão que de repente se tornou a coisa mais interessante do jantar então por que é que nos servem uma côdea destas num jantar tão esmerado dizia eu e já a partir o pão ao meio mostrava o miolo macio e ainda a cheirar a forno porque tudo na vida é um pouco assim há que buscar por trás da côdea a suavidade que nos convém mas a côdea também denuncia o miolo seco e desinteressante afinal é preciso reparar nas pequenas nuances que nos põem à frente não deixar que as aparências nos toldem o juízo nem toda a saliva do mundo chega por vezes para engolir o excesso de forno numa côdea mas dentro da panela migada com alho e azeite e ervas frescas até nos excita os sentidos a deslizar com um dedo de tinto encorpado e quente e por aí adiante a inventar que eu quando me solto já não paro tem existência a cultura da côdea ou outra cultura qualquer mas ali à frente daquela gente à séria a olhar para mim só me lembrei de pegar nas bolas enfarinhadas nos cacetes franceses e nas pitas e desfazê-las em pedaços atirá-las para uns e para outros então queriam a cultura da côdea pois aí a têm digam-me lá depressa o que é um raio de uma côdea na mão na boca no chão no nariz ou numa mesa não sabem pois não claro que não porque a verdade é que é para isso que aqui estamos para aprender para que serve o raio da côdea seja ela rija seca mal cozida ou mole como uma hóstia que para aprender não se discrimina na matéria e uma côdea é tão boa como qualquer outra quando queremos olhar e perceber e trocar e experimentar
publicado por manchinha às 00:50

Enfiei a côdea num dente e a culpa é tua.
Joca a 22 de Janeiro de 2008 às 11:00

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
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