manchinha

Julho 03 2004
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A LUSA chamou-lhe 'desfile morno' e aproveita para dar destaque às divisões óbvias que se geraram no seio das organizações LGBT e à adopção da cruzada gay pelos seus 'fãs BE'. Ouvem-se as vozes discordantes e as exteriores. Das poucas imagens do desfile (não fiz zapping, por isso coube à TVI ilustrar-me sobre o ponto de vista dos média da marcha), sobressaíram, como é habitual, as figuras carnavalescas e caricaturais dos trangenders e bold boys de look provocatório. Em termos televisivos, depois dessas imagens, as declarações conciliatórias e de senso comum de uma representante da rede EE pareceram apagadas e tímidas. No final, o entusiasmo activista do Miguel Portas quase arrancou a causa do Orgulho ao próprio Orgulho.

Que me perdoem os activistas de hoje, mas a nossa orgulhosa causa está agora muito próxima da altura em que ainda nenhuma associação o representava. Que me perdoem de novo, mas sinto saudades do Gonçalo Diniz, da sua determinação e da sua capacidade para reunir pequenos grupos dispersos em torno de uma causa e levá-los a assumir a primeira associação LGBT portuguesa.

Não porque estejam apagadas da minha memória as fratricidas discussões que inúmeras vezes se travaram a nível pessoal e colectivo sob a sua orientação, muitas delas fomentadas pela juventude e inexperiência do próprio Gonçalo.
Há, no entanto, que invejar a sua capacidade de agrupar, orientar e negociar à esquerda e à direita, com entidades públicas e até com a comunicação social um estatuto emergente e vital naquela altura.

Agora, o que vejo e lamento, é o regresso aos pequenos grupos dispersos e sem capacidade de, respeitando as suas diferenças, reservar uma parcela da sua actividade independente para congregar esforços nas iniciativas comuns como um único e coeso movimento. E aqui é que está o busílis da questão: a discriminação fratricida entre os grupos e associações LGBT, quando afinal é justamente a discriminação que combatem e não são capazes de o fazer no seu próprio seio.
Digam-me, meus amigos, como é que se pode estar, mental e politicamente, contra uma coisa que não somos capazes de pôr em prática no dia-a-dia, e ainda por cima entre os nossos próprios pares?

Digam-me, queridos pares, por que razão discriminar entre nós se tornou subitamente uma cruzada pessoal e tão ferozmente assumida por cada grupo e organização LGBT?

Porque está certo que os grupos e as organizações sejam diferentes e tenham os seus próprios objectivos. Porque está certo que cada um tenha direito à sua própria forma de luta, às suas convicções pessoais e ao seu sonho, ao seu plano e aos seus projectos.

Mas qual é o orgulho de uma marcha em que não se dá a mão ao vizinho do lado e não se assume que, no fundo, os objectivos dele são os mesmos que os nossos?
Qual é o orgulho de, quando uma câmara de televisão se aproxima de um jovem vestido de forma provocante e ousada, para ser objecto da atenção que se dá habitualmente a um freak, não se formar um cordão de activistas de jeans e t-shirt em torno dele para que se passe a mensagem: por baixo da maquilhagem, do exagero, da provocação, ele é um de nós; ele está a fazer aquilo que todos estamos aqui a fazer; está a mostrar como, dentro da comunidade LGBT a diversidade também existe e não é, nem será nunca propriedade de uma campanha, de um lobby ou de um instante bem intencionado de um político ou de uma figura pública.

Porque uma marcha, uma celebração, uma festa, uma jornada de estudos, uma concentração ou um festival de cinema não são circos, curiosidades de um mundo à parte ou acontecimentos de uma vida ou uma cultura alternativas. São uma porção da vida de todos vós, que nos filmam, nos fotografam e se consideram espectadores distantes de acontecimentos mais ou menos interessantes da vossa vida. Porque vocês são a nossa vida. Vocês que nos filmam, que nos fotografam, que nos observam e nos comentam, são os nossos pais, os nossos irmãos, a nossa família e os nossos amigos. Vocês são as pessoas que nos criaram e nos moldaram. Vocês são as pessoas que também têm os vossos grupos, os vossos lobbies e as vossas convicções, e é à vossa imagem e semelhança que trabalhamos os nossos.
Vocês são iguais a nós e a diversidade é apenas uma questão individual e irrepetível, de indivíduo para indivíduo.

Falo-vos assim, mas não fui à marcha. Não respondi quando me escreveram um e-mail a perguntar se tinha alguma ideia para ela. Porque não tinha. Porque me cansam as infindas discussões pessoais a que a militância activista LGBT obriga. Porque me falta a energia para jogar sempre o mesmo jogo de ping-pong em que o árbitro é o fantasma dos medos de cada um sobre as repercussões que este ou aquele passo possam ter. Porque o árbitro continua a ser parcial, cheio das mesmas convenções sociais, das mesmas ideias feitas e da arreigada mentalidade do 'anormal-será-que-tenho-realmente-direito-a-dizer-aquilo-que-penso'. Não que nos falte coragem, mas definitivamente o ânimo e a crença no sonho. A esperança continua a ser a do milagre, o futuro continua a ser o fado.

Não exerço hoje nenhuma espécie de activismo porque não lhe sinto utilidade na forma e no conteúdo, tal como agora se põe em prática.
Não milito hoje por uma causa comum, porque para haver uma causa há que haver uma filosofia que a suporte. E as filosofias exigem estruturas fortes, ideias precisas, construções sólidas. Onde estão elas? Onde estão os nossos teóricos dessa filosofia de uma comunidade, uma diversidade, uma diferença, uma cultura, uma atitude social? Convenhamos, a nossa cultura está tão limitada à nossa predisposição para escolher cônjuges do mesmo sexo que pouco mais há acrescentar, além da alteração do artigo 13º da constituição e alguns direitos básicos que, por este andar, alguns oportunos políticos se encarregarão de tornar obra sua.

Além disso, pouco mais do que umas dezenas de títulos num modesto escaparate da FNAC (o maior, por sinal), um festival invariavelmente fustigado pela falta de entusiasmo, voluntários e espectadores LGBT, festas e iniciativas que sofrem de falta de divulgação e participação.
O mais doloroso: quando um grupo de indivíduos lança uma ideia ou uma acção realmente meritória e com pernas para andar, não recebe da parte do seu público ou destinatário natural o reconhecimento e a participação devidas, além de ter de enfrentar o feroz terrorismo ou resistência passiva dos outros grupos, e tudo muito subtilmente acompanhado de palmadinhas nas costas e sorrisos e até manifestações de apoio.

Não participo, a não ser ocasionalmente, em nenhum grupo ou actividade porque acredito no meu direito de exercer individualmente as minhas convicções. Porque extraio hoje mais gratificação dos meus actos individuais do que alguma vez extraí com o meu contributo associativo dentro da comunidade. E com um bónus extra: não sofro o árido desgaste da participação de projectos que nunca o chegam a ser ou se ficam pelos mínimos resultados, não sujeito a minha vida, a minha família e os meus amigos ao meu crónico cansaço de tíbias causas, e recebo deles a partilha de um crescimento pessoal que, em tempos, acreditei ser possível fomentar com o trabalho nos grupos e associações.

Corro o risco de ser mal interpretada, por isso tenho de vos dizer isto: todos os grupos trabalham e de todos eles sabe bem beneficiar, de tempos a tempos, de actividades e iniciativas a que, de outra forma, jamais teríamos acesso. Sabe bem saber que há sempre um núcleo de carolas que se mata e esfola para tornar essas ocasiões possíveis. Mas de fora, ao observar o cansaço e as consequências do desgaste em mal-entendidos e dissenções desses próprios grupos, dói-me o coração ver tanto trabalho e honesto entusiasmo diluir-se em desilusões e ressentimentos. Custa-me observar a erosão das relações humanas entre pessoas que se uniram para alcançar um mesmo objectivo. Qual é o antídoto para 'casa em que não há pão, todos ralham, ninguém tem razão'?

Gostava de o conhecer e de o distribuir em doses generosas por todos nós. Mas não tenho. Só gostaria que fosse possível fazer como nas empresas e na política: declarar falência, fechar as portas, deitar o edifício abaixo, demitir os mandantes e recomeçar do zero. O pior é que ninguém gosta de deitar fora coisas forjadas com tanto trabalho e sacrifício pessoal, além de uma intensa partilha com outros. Não resultam, mas insiste-se até à exaustão. Morre-se aos poucos até a desilusão levar a melhor. Liberdade ou morte. Morte, claro. Mais exactamente, suicídio.

Atrevo-me a sugerir uma mezinha. É uma coisa caseira, sem importação directa dos EUA ou de qualquer outro país com mais tradições (e iguais problemas) nas artes da associação e da luta pelos direitos. Juntar todos os grupos e associações num grande encontro, em local neutral, fechá-los com mantimentos para todo o fim-de-semana, raptar a irmã gémea da psicóloga do Luiz Filipe Scolari e forjar um novo acordo entre todos, de preferência do qual resulte um conjunto de iniciativas comuns, em completo divórcio com todas as datas e tradições até agora por nós copiadas dos states ou outras paragens.

publicado por manchinha às 15:48

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