manchinha

Abril 10 2004
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Às vezes vou à praia, outras vezes vou ao mar. Há diferenças, mas hoje não as sei. Vou de férias ontem, que não se sabe o dia de amanhã. Apanho polvos nas rochas, mas aborreço-me. Há uns anos sabiam-me os dias passados a olhar para o mar. Hoje inquieta-me o excesso de tempo para pensar. Mais uma mancha no meu currículo.
O que os museus portuguses têm de bom é que não há filas à entrada. Aos fins de semana vão para lá ler o expresso, à mesa das cafetarias. Deixam-nos as vistas mais livres e livram-se das crianças nos jardins, aos pulos e a falar sozinhas como em casa.
Deve ter sido dos 'Beautiful Loosers', esta mancha que mais parece uma nuvem em dia de trovoada. Se escrevesse um livro gostava que fosse como o do Cohen, mas arrepia-me só a ideia de ter de me passear por tanta acabrunhação. Não se deixem impressionar. Vale a pena, qualquer bocadito. É como uma bíblia, qualquer parágrafo faz sentido, nem que seja pelo dessentido existencial.
Ainda não li o livro do Saramago. Deve ser pecado, a avaliar pelo número de escritos a que deu forma. Ando a ler 'A foto de Lime', Leif Daviddsen, Asa. Interessante, fácil de consumir, com uma revisão de enfiar a cabeça dentro de gelo. As editoras perderam o brio e qualquer dia só lemos e falamos proto-guês.
Comprei um café fenomenal. Oitocentos e cinquenta gramas (não cabem mais na minha lata do vício) de pozinho escuro como breu e com um cheiro capaz de me elevar ao céu. Hélàs, esqueci-me completamente dos nomes das variedades que compunham a mistura.
Não gostei nada do fim que o Miguel Sousa Tavares deu ao Equador. Aliás, acabou a história quando ia justamente no melhor.
Um dia decidi fotografar todas as árvores secas que me apareciam à frente. Ainda tenho quatro caixotes de fotografias na arrecadação e continuo sem saber o que lhes fazer. A certa altura arranjei um emprego num advogado que convidou para almoçar no Escorial e me ia atirando da cadeira abaixo a empurrar o meu joelho com o dele enquanto me descrevia as virtudes afrodisíacas do camarão frito ao alhinho com que abrimos as hostilidades. No dia seguinte mostrei-lhe umas centenas de fotografias das árvores e insisti para que me dissesse, com toda a honestidade, se tinha futuro como caçadora de imagens. No final da semana dispensou os meus serviços.
Vou de férias ontem.
publicado por manchinha às 02:33

manchas negras, cinzentas e brancas em todos os cantos da nossa vida. que fazer senão chocar de frente com elas e esperar que o acidente tenha consequências notáveis?
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